Entender um poema não é fácil, mas será que precisamos mesmo entendê-lo?

Por Aline Rodrigues

Quatorze de março, dia da tão maravilhosamente enigmática poesia, que fascina a todos sem que todos saibam, contudo, o porquê de tal fascínio, sem que se consiga discernir qual é o elemento presente nela capaz de nos tocar a alma. Mas afinal, qual é o mistério da poesia?

Muitas foram as vezes em que eu ouvi elogios a certos poemas: “Que belo! Lindo! Uau! Nossa! Emocionante”… Mas eles não passavam disso e se detinham aí, no pasmo silêncio de quem ainda tentava descobrir o que havia acontecido tamanho impacto do poema. Assim também acontece comigo. “Nossa, que lindo”, eu repito após uma segunda leitura, mas nada de eu conseguir descrever o exato ponto responsável por me causar tantas emoções. Sempre desisto de tentar entender e dou-me por satisfeita apenas pela sensação agradável que o poema deixa em meu coração. E assim acontece com muitas pessoas também.

Realmente, entender um poema não é fácil, mas será que precisamos mesmo entendê-lo? Há essa necessidade para gostar de um poema? Pergunto isso, pois já ouvi muitas pessoas reclamando por não “saber ler” um poema alegando incapacidade intelectual, como se o poema dependesse pura e exclusivamente dos esforços do intelecto, sem clamar pelo nosso lado sentimental de enxergar o mundo. Desse modo, é como se a poesia fosse feita apenas para um círculo fechado para alguns poucos escolhidos e agraciados com o “dom” de saber ler um poema.

Em parte, este modo de pensar não está errado. A poesia se torna, enquanto pertencente à instituição Literatura, reservada aos poucos com acesso a tal instituição que, em suma, na atual conjuntura da desigualdade social em que vivemos, podem ser entendidos como aqueles que se encaixam nas camadas média e alta da sociedade, que possuem educação de qualidade e seus direitos básicos garantidos. Os que nada disso possuem, ficam de fora da Literatura.

E coloco aqui a Literatura como uma instituição, pois ela estabelece padrões, dita valores e regras a seguir, seleciona o que vale ou não para ser considerado um clássico, um cânone. Impõe o que deve ou não ser feito, assim como qualquer outra instituição faz, como a escola, o casamento, a sociedade como um todo.

Por outro lado, não atribuo a dificuldade de entender um poema, como afirmei há pouco, apenas pelos motivos segregadores apontados, até porque eles extravasam os limites do texto, indo para maiores discussões  e o dia quatorze não receberia seu devido destaque. Mas deixo as minhas sinceras e iniciais provocações para quem quiser refletir mais a respeito do amplo campo da literatura.

No entanto, também atribuo a dificuldade de entender poemas pelo fato de que eles falam do subjetivo, daquilo que de mais interior há em nós e, enxergar o que nos está muito próximo é difícil. Sem um distanciamento, nada se revela por inteiro e os sentimentos ficam confusos e indistintos. Mas, que poesia é essa? Como ela pode saber tanto sobre mim e sobre o outro ao mesmo tempo?

Acontece que, a poesia, tal como a concebemos, nem sempre foi assim. Aliás, poesia existe antes mesmo da escrita. Ela se originou por meio de uma cultura oral, em que narrativas eram declamas com o auxílio de música. Falo de um período anterior, como o da Grécia antiga (séc. V- VII a.C), falo de um universo totalmente diferente do nosso, outro contexto, mas que já possuía sua forma de poetizar. Clássicos como Ilíada e Odisseia de Homero pertencem a essa época.

Portanto, as primeiras noções que surgiram de poesia diferem muito do que entendemos hoje. O que temos é um tipo de poesia que parte do sujeito e este expressa, no mundo, os seus sentimentos e aspirações, como a própria extensão de sua alma; a chamada poesia lírica moderna. Temas como o amor, a morte, e as mais diversas angústias do ser humano são os mais tratados em tais poemas justamente por estarem ligados ao coração, ao ânimo do homem, ao particular de cada um.

Entretanto, há espaço para falar de sujeito no mundo atual, quando todos vivem conectados em suas redes sociais e tudo se compartilha, onde as informações são obtidas facilmente, o dia a dia é corrido e tumultuado e o que impera é o coletivo? Como encontrar o afastamento necessário para estar consigo mesmo, voltar-se para seu eu e mergulhar no profundo da poesia?

Nunca esquecerei do dia em que eu estava na estação Vila Madalena, na Cidade de São Paulo e vi, na pressa de passar a catraca e chegar ao metrô que já estava dando sinal de partida, o meu poema favorito, Tabacaria, de Fernando Pessoa. Aqueles versos “fiz de mim o que não soube/ e o que podia fazer de mim não o fiz”, tocaram-me em cheio e eu parei para lê-lo inteiro, embora já o soubesse. E mais: li todos os outros que também estavam ali, na parede da estação, sem lembrar mais do horário e do metrô perdido.

E achei incrível a ideia. Desde 2009 alguns metrôs de São Paulo são preenchidos por poemas dos mais diversos – e maravilhosos – autores, como Augusto dos Anjos, Camilo Pessanha, Camões. Poemas compartilhados e acessíveis ao nosso tempo, à nossa rotina.

São milhares de pessoas que utilizam os metrôs todos os dias e essa iniciativa faz com que, mesmo que por poucos minutos, elas entrem em contato com a poesia. E quem sabe a diferença que esse contato pode fazer no dia de uma pessoa? Dentre os versos de um dos poemas expostos, alguém pode encontrar exatamente aquilo que precisava, se encontrar em meio à multidão.

Sim, claro que pode, porque a poesia lírica tem dessas coisas, transforma as experiências de um, a do autor, em experiências do outro, o leitor, e então ela se torna universal. Pensando assim, ainda faz sentido falar de sujeito no mundo estressante e apressado em que vivemos, faz sentido falar do sentimento quando tudo está tão automático. Precisamos da poesia em nossa vida.

E não é somente no metrô que a encontramos, não é só em versos que ela se faz presente. Aliás, um poema não se define apenas pela sua forma, digo metro, ritmo, versos e estrofes. Uma prosa pode ser considerada poética, como bem nos mostra Clarice Lispector e Guimarães Rosa.

Tudo, quando tratado da maneira certa, pode ser considerado um tema poético e nos tocar, entrar em consonância conosco; uma flor, um momento, embora os limites entre o que é ou não poesia sejam complicados de definir. Manuel Bandeira, por exemplo, fazia poesia com o pequeno, com o cotidiano e coloquial. Para ele, o belo se encontrava no baixo, sem que fosse preciso ir muito longe para encontrar uma poesia.

Assim, costumo dizer que a  poesia está em tudo na vida desde que estejamos abertos para ela. O dia quatorze se faz mais do que bem-vindo. Dia que homenageia Castro Alves, que nasceu em 14/03/1847, um dos maiores poetas da nossa literatura; mas dia que também é comemorado em outras datas em diferentes estados, em homenagem a outros poetas, como o dia 31 de outubro em Minas Gerais, aniversário do Carlos Drummond de Andrade.

Então, qual é o mistério da poesia? Não sei. Não sei nem se há como saber tal questão, já que muitos filósofos, críticos, escritores e pensadores já tentaram responder à pergunta. O que sei é que a poesia, assim, tão impressionante e obscura, tão bonita e fugaz, não admite respostas únicas e objetivas de um mistério único, mas admite várias para os muitos mistérios que possui.