Aline Rodrigues

O tempo não cessa, assim como os padrões e ditames sociais também não. A calça da moda do ano anterior já não serve mais para este, o corte de cabelo da mocinha da novela que acabou já se tornou ultrapassado, o carro zero e sensação do último verão já parou de ser fabricado, até mesmo as músicas são substituídas de um modo rápido.

Inevitavelmente, na era em que nos encontramos, liderada pela vontade das massas, as coisas se esgotam tão rapidamente quanto entram em ascensão. No entanto, e ainda bem, podemos nos deparar com algumas coisas que vencem o ritmo acelerado do tempo e resistem. Este é o caso do piquenique que, sai época, entra época, continua na moda.

Sem muitos segredos, o piquenique consiste em uma reunião de pessoas que, ao ar livre e acompanhadas de comida e às vezes música, aproveitam para confraternizar. É um programa simples, rápido e barato e, justamente por isso, comumente associado aos jovens; uma ótima opção para quem, em geral, não pode arcar com outros programas ditos mais elaborados.

Mas isso não o diminui em nada, já que os momentos mais belos e que mais nos lembramos se encontram no baixo dos pequenos gestos, na delicadeza das poucas palavras, na pureza que não se esconde no excesso do sofisticado. De tal modo, essa prática pode ser reinventada e aproveitada da melhor maneira possível.

Uma modificação aqui, outra ali, e o piquenique vira um encontro romântico, mas ao tirar as flores e os bombons trocando-os por algumas bexigas amarradas nos galhos de uma árvore bonita, pode virar uma festa, com um bolo vira a comemoração de um aniversário, com poesias um sarau, por que não?

Mudam-se os elementos, mas permanece a regra. O piquenique tem a característica indispensável da boa companhia, da comida gostosa, do contato com a natureza, do convívio com o outro. Assim, sendo um momento essencialmente de lazer, podemos, aqui, expandir a ideia de jovem.

Qual é o critério para definir o que ou quem é jovem? Fala-se, com esta palavra, de qual faixa-etária? Ou ela não diz respeito à idade? Ser jovem parece muito mais do que poder ou não pagar por uma distração, ter esta ou aquela idade. Para mim, ao menos, ser jovem parece ter mais a ver com certo estado de espírito do que com qualquer outra coisa.

E dentro desta perspectiva, o piquenique não se limita a um grupo específico. É isso que o torna tão atemporal e faz com que ele, apesar da constante mudança de hábitos e valores sociais, nunca saia de moda.

Puxo agora em minha memória a última vez que fiz um piquenique. Foi no final das férias, já estava quase pronta para voltar à ativa, à loucura cotidiana de quem vive em São Paulo. O lugar escolhido da vez foi o Ibirapuera e depois de tudo, da comida, do bom papo com meus dois amigos que há muito não via, das risadas e saudades matadas, ainda conseguimos alugar bicicletas e conhecer as outras partes do parque tão bonito.

Essa é uma boa lembrança que vou levar por muito tempo e, ao reativá-la, outros e outros piqueniques passados começam a surgir também. Poderia citar mais uns três de que gostei muito. Momentos como esses deveriam se repetir com a mesma frequência com que os compromissos estressantes nos perturbam.

E olha que para um piquenique acontecer não é preciso muito. Primeiro, precisamos reservar um tempinho na agenda, que pode ser um final de semana qualquer, em um bom feriado de manhã, no fim da tarde com o pôr-do-sol, não importa. Um tempo para a distração sempre é necessário, por mais difícil que seja. Não só a mente pede por ele, mas também o coração.

Depois, pensar nas comidas. Não pode ser nada que estrague com facilidade ou que seja muito gorduroso e de difícil digestão. O ideal é levar frutas frescas, lanches naturais, biscoitos secos, sucos e muita água. Tudo bem embalado e organizado em uma cesta arejada ou em bolsas térmicas. Incluídos nesta parte, estão os objetos práticos, como guardanapos, toalhas, copos e talheres descartáveis.

Por fim, e uma das coisas mais importantes, devemos procurar o local. Praças e parques são ideais e em São Paulo temos algumas boas opções. Citei aqui o Ibirapuera, que possui muitas atrações culturais e é um dos pontos turísticos mais famosos de São Paulo, mas também tem o Villa-Lobos e o Parque da Água Branca, na zona oeste, o Parque do Carmo na zona leste, Horto Florestal, próximo ao parque Estadual da Cantareira, entre muitos outros. Basta pensar naquele que mais lhe agrada e combinar tudo com as companhias.

Amigos, família, parceiros, ou todos juntos, quem sabe. O piquenique comporta tudo e comporta todos, assim como o dia do jovem, que é dedicado a todos que têm o espírito livre, leve e solto e por isso conseguem aproveitar os prazeres da vida; aos jovens de alma, de mente, aos de corpo e, principalmente, aos de coração.